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A história das coisas

 

O vídeo a seguir é uma consistente e incômoda lição de como funciona a sociedade de consumo em que nós vivemos, suas condicionantes, implicações e limites. Digo incômoda, porque a saída é muito difícil de vislumbrar. Por outro lado, tomar consciência do que se passa é motivo de alegria. É pré-requisito para começar a inventar soluções. É importante ressaltar, como a locutora faz ao final de sua exposição, que a atual situação não é natural como as leis da natureza, portanto não se deve encará-la como algo absolutamente inamovível. Aderir, de imediato, a práticas alternativas não seria fácil e me parece que exigiria que nos retirássemos para alguma espécie de comunidade rural isolada. Acredito, porém, que, por um bom tempo, viveremos a incoerência de adotar práticas instituídas e instituintes simultaneamente. Que seja! Recusar uma sacola plástica para carregar um remédio que cabe em seu bolso, sacola que viraria lixo no dia seguinte, é um grande começo. Usar um copo de vidro para beber água no trabalho evitará que uns duzentos copos descartáveis vão parar no lixo. Por que não vale a pena? Bem, veja-se o vídeo abaixo, a não se perder de jeito nenhum.

 

 




Categoria: Política


Escrito por Ramon às 22h59 [ Comentar ] [ envie esta mensagem ]






Desacordo de equívocos

Não me lembro de haver comentado o patético acordo ortográfico cuja vigência se aproxima, com o término deste ano. Concordo, em gênero, número e caso, com os pontos levantados pelo Prof. Claudio Moreno, em artigo (Deixem a nossa ortografia em paz!) publicado em sua página web, Sua Língua. O que deveria dar sustentação à medida soa-me ridículo. Abolir um acento ou eliminar uma consoante melhorará o entendimento mútuo entre os lusófonos tanto quanto usar guarda-chuva furado protege contra uma enxurrada. As minúsculas diferenças ortográficas não impõem dificuldades reais a pessoas letradas dos diferentes países de língua portuguesa, e sim, o vocabulário específico de cada um. O custo e o esforço necessários para adaptar mentes e bibliotecas inteiras às novas regras não valem os ganhos mínimos. Se é para passar por mudanças, questiona Moreno, por que não aproveitar e ser mais ousado? Se teremos de republicar os livros escolares, os dicionários das bibliotecas e tudo quanto for escrito, por que, por exemplo, não abolir logo todos os acentos, que não fazem muita falta e criam muitas barreiras no processo de letramento? É sem sentido repetir os argumentos, muito bem engendrados e fartamente ilustrados, do professor, portanto paro agora e remeto a ele os interessados.






Escrito por Ramon às 11h38 [ Comentar ] [ envie esta mensagem ]






 
 

Cassação civilizatória

Contra o argumento de que a cassação de Cássio Cunha Lima, Governador da Paraíba, é indesejável e inoportuna, por muito serôdia, alego que será uma medida pedagógica e civilizatória para o Estado. É verdade que a transição para um Governo de dois anos não é o melhor dos mundos, e também é verdade que o provável substituto não é exemplo de virtudes, mesmo quando contrastado com Cássio, que já trazia o destino no nome. Constituiria, no entanto, um divisor de águas na política paraibana, pois a maior atenção e o adicional respeito dos eventuais candidatos às regras do jogo e às instituições elevariam sobremaneira o nível das disputas. Não deixa de ser estranho, porém, que nossa legislação permita que um candidato assuma, governe a metade do mandato, e, finalmente, a Corte eleitoral considere ilegítima sua eleição. Durante dois anos, portanto, uma pessoa sem legitimidade tomou todas as decisões importantes do Executivo, promulgou leis, assinou decretos. É impensável invalidar seus atos. Como sou pitaqueiro, agradeço, se os entendidos em Direito me ajudarem a entender o princípio por trás de uma tal lei.




Categoria: Política


Escrito por Ramon às 11h33 [ Comentar ] [ envie esta mensagem ]






 
 

Presidente Lula bate recordes de popularidade II

O que acontece com a popularidade do Presidente Lula me parece ter um aspecto novo, em se tratando de política brasileira. Essa frase está bem na linha do nunca-antes-na-história-deste-país, eu sei, e fica a cada um dos supostos 13 leitores a obrigação de discordar, se for infundada minha opinião. Aqui no Brasil, tradicionalmente, as idéias e, com elas, as preferências políticas se difundiam do centro para a periferia, das capitais para o interior, dos mais ricos e supostamente bem informados aos mais pobres e supostamente acríticos. Não me atrevo a dizer que isso já não ocorre, até porque acho que se trate de uma dinâmica facilmente compreensível, por natural: o poder econômico proporciona, o mais das vezes, os instrumentos necessários para influenciar e se reproduzir. Com relação a Lula, houve um momento em que essa regra centro-periferia se rompeu, e as populações subalternas acolheram-no, em detrimento de formadores de opinião, grupos de comunicação, caciques políticos e tudo mais. Agora, a posição dos mais pobres começa a se espraiar pelos mais ricos, a da periferia, para o centro: a aprovação a Lula subiu nove pontos entre os mais escolarizados e também nove no Sudeste, a região mais próspera. Para não simplificar demais, é essencial reconhecer que a viabilização de Lula como Presidente teve de passar por concessões e pela conquista do apoio de aliados oriundos do andar de cima. De todo modo, não acredito que isso diminua o ineditismo do fenômeno ora descrito.




Categoria: Política


Escrito por Ramon às 11h32 [ Comentar ] [ envie esta mensagem ]






 
 

Presidente Lula bate recordes de popularidade

Segundo pesquisa do Datafolha divulgada hoje, a aprovação do Governo do Presidente Lula atingiu patamares estratosfericamente inéditos: 70%. Para se ter noção da significância desse número, a segunda melhor avaliação de um presidente foi de Fernando Henrique Cardoso, em dezembro 1996: 47%. Embora Lula seja muito mais bem avaliado entre os estratos mais pobres da população, também entre os mais escolarizados, os mais ricos e os sudestinos, sua aprovação é franca, indubitável. Como ficam, então, as teses de que a popularidade do Governo advém da ignorância dos mais pobres? De que só no Nordeste Lula é bem recebido, porque compra as consciências com esmola? De que só quem recebe Bolsa-Família gosta da atual gestão? Será que estes resultados serão suficientes para jogar por terra os mitos que circularam nos últimos anos sobre a incapacidade de senso crítico e voto de alguns segmentos do eleitorado nacional, já comentados aqui?




Categoria: Política


Escrito por Ramon às 11h30 [ Comentar ] [ envie esta mensagem ]






O CONSENSO QUE INTERESSA

Saiu no jornal britânico The Guardian que a primeira campanha publicitária ateísta suplantou amplamente suas metas financeiras. A idéia era arrecadar £ 5.500,00 para financiar a veiculação da frase There’s probably no God. Now stop worrying and enjoy your life., em 30 ônibus, durante 4 meses. A idéia partiu de um texto da escritora Ariane Sherine, como uma forma de se contrapor às mensagens religiosas ameaçadoras, com promessas de danação e inferno.

Em princípio, tenho reservas quanto a congregações, associações e proselitismo ateístas, embora – ou porque – eu seja ateu. Ao contrário de muitos evangélicos hoje e de muitos católicos de antanho, não acho que a disseminação de minha cosmovisão trará benefícios eternos a quem a adotar.

De todo modo, entendo também que muita gente permanece na crença, porque a considera tão natural quanto respirar, assim como consideramos diversas instituições e valores como sendo o modo natural de ser das coisas, quando, na verdade, elas não têm sequer um século. Dar publicidade a idéias ateístas tem, ao menos, o mérito de fazer as pessoas saberem de sua existência, como uma dose de alteridade que não faz mal a ninguém.

Compartilho um gráfico retirado de um artigo publicado na revista Teoria e Debate da Fundação Perseu Abramo, o qual reporta os resultados de uma pesquisa sobre a intolerância à diversidade sexual no Brasil. Como se pode constatar, entre todas as categorias apresentadas, inquestionavelmente abrangendo as principais vítimas de preconceito e discriminação, a que mais desperta rejeição é Gente que não acredita em Deus. Por outro lado, o grupo que desperta mais satisfação ou alegria é o de Gente muito religiosa. Toda forma de preconceito é abjeta, independentemente de qual seja seu objeto, mas é lastimável que, de maneira geral, as pessoas ingenuamente ainda associem a adesão a uma fé ou a abstinência dela aos valores éticos essenciais, afinal, nunca vi um charlatão que se declarava ateu, mas sobejam trapaceiros que arrotam santidade.

 

  

Já conheci ateus de todos os gêneros e que não acreditavam em Deus por razões as mais diversas. Por incrível que pareça, conheço ateus místicos, que crêem em astrologia, quiromancia e congêneres. Conheço quem já se declarou filosoficamente agnóstico e religiosamente ateu. O rótulo oculta uma multiplicidade que dificilmente se sentirá representada e contemplada por uma campanha encabeçada por determinado grupo. Afinal, se o cristianismo, que tem instituições históricas e hierarquia, livro sagrado e tudo, anda todo esfacelado em igrejas cujas denominações são motivo de piada, será possível gerar consenso único entre indivíduos mancomunados simplesmente por uma negação?

Muito útil e efetivo é gerar consensos éticos, independentemente de religiões, em torno de determinados princípios que garantam a integridade de toda forma de existência que não fira esses mesmos princípios. Um que me é muito caro é o Estado laico; outro, a liberdade, que não deve se confundir com licenciosidade, como o fazem alguns órgãos de imprensa e algumas igrejas evangélicas.




Categoria: Política


Escrito por Ramon às 17h11 [ Comentar ] [ envie esta mensagem ]






Filosofia das origens?

Costumo compilar temas interessantes que encontro em minhas leituras, para comentá-los, mais tarde, nestes cadernos, quando me sobra tempo. Como a vagabundagem não me deixa quase nada, é dispensável dizer que muitos assuntos se perdem, ou perdem o tempo, ou seja, tornam-se intempestivos.Apesar de o evento que pretendo ora comentar já haver ocorrido, creio que o que tenho a dizer sobre ele não perdeu o interesse, ainda é tempo. Refiro-me ao 6º Seminário sobre Filosofia das Origens, ocorrido, entre 10 e 12 de outubro últimos, em Campina Grande.

Suponho, sem medo de errar, que os 13 leitores que eu tinha, e talvez ainda aqui compareçam, não conseguirão formar idéia exata do que foi tratado no aludido seminário. Conforme é possível confirmar pelo texto de divulgação acessível através do link, o evento se propunha tratar de questões como “O que ele não sabia e nós sabemos? O que sabemos confirma ou rejeita suas teorias? Enfim, ele tinha ou não razão? Há 176 anos ele esteve no Brasil. Este ano voltou! Após mais de um século, como anda sua teoria? O que está, na realidade, por trás da exposição itinerante em sua memória?”.

A curiosidade ainda não abandonou certamente a caixola de quem me lê, a menos que tenha se desviado deste texto, para já conferir pessoalmente a notícia sobre o evento. O tom dos tais questionamentos é de cumplicidade, e o pronome pessoal masculino do caso reto “ele” supõe que seja óbvia a identidade da pessoa de quem se fala. O bom leitor concluirá que, em se tratando da tal Filosofia das Origens, a questão primordial é saber se “ele” tem razão ou não. O suspense não poderia ser maior, quando se considera que “ele” veio ao Brasil há quase dois séculos e agora voltou, o que, se não indica uma extraordinária longevidade, implica necessariamente um fenômeno sobrenatural. A cereja dessa curiosíssima e misteriosa torta é que há algo por trás da exposição itinerante em memória “dele”, e – creio eu – o release não se refere às pessoas da equipe que montou a mostra, e sim, a passagens secretas, alçapões ardilosos e interesses escusos, bem ao gosto dos fãs de teorias conspiratórias. Em suma, a grande verdade sobre ele, o veredicto sobre se ele tinha ou não razão, será revelada a quem não perder aquela imperdíbilíssima oportunidade.

No segundo parágrafo da notícia, destaque-se que os organizadores anunciaram ser o foco do seminário a abordagem de cosmovisões sobre a origem do mundo, enfatizando “as limitações do conhecimento humano”. Além disso, seriam promovidas “palestras destacando a harmonia entre a concepção bíblica e os aspectos científicos da questão das origens”. O leitor antenado já tem pistas suficientes para saber o que está por trás, pela frente, por cima, por baixo e pelos lados do tal seminário. Propositadamente, omiti uma informação fornecida no primeiro parágrafo, por questões estilísticas, e não, por má fé. Os organizadores do evento são a Universidade Estadual da Paraíba (UEPB), a Associação dos Docentes da UEPB e a Sociedade Criacionista Brasileira. Entendeu agora?

O terceiro parágrafo – não percam – é um suculento festival de excentricidades, em que a intenção proselitista do evento não poderia mais passar despercebida a alguém minimamente informado. No último parágrafo, dizem-nos que haverá sorteio de brindes, o que é um tanto atípico em eventos acadêmicos sérios. Consigo até imaginar os prêmios: Bíblias em linguagem atual, adesivos do Smilingüido, decalques para carro com a frase “Quando Deus quer é assim.”, CD de Mara Maravilha etc.

A maioria das religiões sofregamente tenta desacreditar a avalanche de evidências científicas e filosóficas contrárias a seus dogmas e, ao mesmo tempo, agarra-se, com desespero, a qualquer possibilidade científica de confirmação do que pregam. Nestes casos, os aproveitamentos sempre são impertinentes para salvaguardar o núcleo da fé. É de se questionar, ainda a tempo, a promoção de um tal evento por uma universidade, mormente em se tratando de instituição movida com recursos públicos. Não só o Estado é laico, como também a abertura que uma universidade deve admitir aos conhecimentos não se confunde com total falta de critérios.

Muito mais intempestivos do que meus comentários poderiam ser é esse debate entre criacionismo e evolucionismo, no seio de uma comunidade formada por pessoas com formação científico-filosófica minimamente séria.




Categoria: Filosofia


Escrito por Ramon às 00h08 [ Comentar ] [ envie esta mensagem ]






Saramago de blogue

O fenômeno dos blogues está se espraiando mesmo. Acabo de ler a notícia de que o Nobel de Literatura lusófono, José Saramago, lançou o seu. Chama-se "O Caderno de Saramago", em clara referência a estes cadernos a que o leitor tem acesso há bem mais tempo. Outra semelhança entre os nossos cadernos - meu e seu - e o de Saramago é que ele se propõe tratar "do que for, comentários, reflexões, simples opiniões sobre isto e aquilo, enfim, o que vier a talhe de foice". As similitudes acabam aí. Uma das diferenças, por outro lado, é que ele já escreveu os livros excelentes que eu muito provavelmente nunca escreverei à altura, se não já notaram meus 13 leitores por conta própria, mui inteligentes que são, embora não otimizem bem o próprio tempo, especialmente no que concerne às escolhas de leitura.Saramago ainda é ateu. Trata-se de um daqueles velhinhos que se mantêm firmes na descrença, contrariando o otimismo dos crédulos, que dizem que ateísmo é moda juvenil que se recolhe ao armário, quando se aproxima a estação da morte. O segundo texto do blog já denota que Saramago ainda não está com medo, como querem os religiosos, ansiosos por propagandear o vacilo. O autor de "Ensaio sobre a cegueira" comenta o pedido de perdão feito pela Igreja Anglicana pelo modo como tratou Darwin, depois da publicação de "Da origem das espécies", lembrando o carinho com que os católicos purificaram a alma de Giordano Bruno, "cristãmente torturado, com muita caridade".




Categoria: Outras Leituras


Escrito por Ramon às 18h29 [ Comentar ] [ envie esta mensagem ]






Machado cronista

Aproveitando o mote da postagem anterior e lembrando que estamos no centésimo ano de morte de Machado de Assis, indico firmemente, principalmente para aqueles que já leram os principais romances do Bruxo do Cosme Velho e alguns de seus contos, alguma atenção a suas crônicas. Embora algumas tenham perdido o sal com o tempo, outras são tão saborosas, que seu tempero faz valer a pena encarar a comida insossa. Machado transita à vontade por temas como economia, filosofia, teatro, política, e o que é melhor: com seu estilo. Como o humor é sempre mais chamativo, e estamos em ano eleitoral - humor e ano eleitoral sempre caindo bem um ao outro, infelizmente -, escolhi o seguinte excerto, para convencê-los:

Este José Rodrigues é bom, é diligente, respeitoso, mas coxeia do intelecto, não que seja doudo, mas é estúpido. Não digo burro; burro com fala seria mais inteligente que ele. Ontem, depois do almoço, veio ter comigo, trazendo uma folha na mão:

- Patrão, leio aqui estes dous anúncios: "Para tosses rebeldes, xarope de jaramacaru". - "Para intendente municipal, Calisto José de Paiva". Qual destes dous remédios é melhor? E que moléstia é essa que nunca vi?

- Tu és tolo, José Rodrigues.

- Com perdão da palavra, sim, senhor.

- Pois se as moléstias são duas, como é que me perguntas qual dos remédios é melhor? É claro que ambos são bons, uma para tosses rebeldes, outro para intendente municipal.

- E esta moléstia é como a neurastenia, que o patrão me ensinou a dizer, e ainda não sei se digo direito, - a tal moléstia nova, que é bem antiga, é a que chamávamos espinhela caída. Ou intendente municipal será assim cousa de dentes?... O patrão desculpe; eu não andei por escolas, não aprendi leis nem medicina...

ASSIS, Machado. A Semana I. São Paulo: Globo, 1997. p. 168.




Categoria: Livros


Escrito por Ramon às 01h36 [ Comentar ] [ envie esta mensagem ]






A história se repete

Julgo-me suficientemente vacinado contra as exclamações dos historiadores de esquina, que, diante da manifestação contemporânea da barbárie que acompanha a humanidade do berço, saem por aí bradando que se trata do final dos tempos. Muito cuidado com a frase preferida do Presidente Lula, isto é, "nunca antes na história". Digo isso, porque deparei com uma crônica de Machado de Assis em que ele comenta caso muito similar, em barbaridade, a um que recentemente povoou todos os meios de comunicação brasileiros ad nauseum. Vejam se adivinham qual foi, pela leitura do trecho:

Guimarães chama-se ele; ela Cristina. Tinham um filho, a quem puseram o nome de Abílio. Cansados de lhe dar maus-tratos, pegaram do filho, meteram-no dentro de um caixão e foram pô-lo em uma estrebaria, onde o pequeno passou três dias, sem comer nem beber, coberto de chagas, recebendo bicadas de galinhas, até que veio a falecer. Contava dous anos de idade. Sucedeu este caso em Porto Alegre, segundo as últimas folhas, que acrescentam terem sido os pais recolhidos à cadeia, e aberto o inquérito.

(ASSIS, Machado. A Semana I. São Paulo: Globo, 1997. p. 193.

A crônica data de 16 de junho de 1895. Terá a sociedade carioca de então se chocado menos do que a atual? Terão os jornais alardeado o caso, revelado os mínimos detalhes e discutido todas as possibilidades, para esgotar suas tiragens? Se isto aconteceu, pipocaram, aqui e ali, alguns casos semelhantes, que mereceram aconchego nas páginas do jornais, até que o assunto caiu no esquecimento, e as pessoas comuns voltaram a acreditar que todos os seres humanos são civilizados?






Escrito por Ramon às 01h19 [ Comentar ] [ envie esta mensagem ]






"Meu reino por um cavalo!"

 

Terminei de ler, na semana passada, Ricardo III, de Shakespeare. Vou aproveitar, então, para rechear o blogue, tão abandonado que está, há meses. Assim, espero ganhar o perdão de meus oito leitores - incluindo minha mãe, que diz que eu faço um bruto sucesso em Quixeramobim -, isto é, daqueles que ainda me prestigiam com a atenção de suas visitas freqüentemente frustradas pela minha ausência. Com isso, talvez o “inverno de nosso descontentamento” seja transformado em “verão glorioso” pelo Sol de nosso reencontro. AVISO QUE ESTE TEXTO PODERÁ REVELAR INFORMAÇÕES SOBRE O DESENLACE DA TRAMA.

Os estudiosos de Shakespeare costumam distribuir as peças do queridinho de Harold Bloom e Bárbara Heliodora em três categorias, de acordo com o tema e com o tom: tragédias, comédias e peças históricas. Ricardo III se enquadraria nesta última categoria, pois consiste na dramatização de episódios que conduziram da Guerra das Rosas, disputa entre as casas de York e Lancaster pelo trono inglês, depois da Guerra dos Cem Anos, à instauração da Dinastia Tudor, a mesma que mandava na Grã-Bretanha, à época em que a peça foi encenada. A ascensão dos Tudor - não é difícil entender por quê - é retratada com heroísmo, como um ato de redenção.

A tentação inicial, por se tratar de um drama histórico, é comparar a versão shakespeariana com aquela constante de livros de História. Esse pode até ser um passatempo valioso, quando o interesse é adquirir conhecimentos históricos, estudar as fontes do fazer literário ou evidenciar as influências do poder sobre a autonomia de criação do escritor, mas, para avaliar a qualidade artística da obra, pouco importa.

A extrema riqueza dos diálogos é um show à parte, como aquele em que Ricardo III convence a viúva de um herdeiro do trono por ele assassinado, Lady Anne, a casar consigo. Há falas famosas, como "meu reino por um cavalo" e "o inverno do nosso descontentamento", esta tendo sido aproveitada para intitular um livro de John Steinbeck e a respectiva adaptação fílmica. Há um diálogo cômico muito bom, entre dois homens contratados para assassinar Clarence, o irmão de Ricardo:

 

Primeiro assassino – O quê? Você está com medo?

Segundo assassino – Não de matar o homem... já que temos garantias... mas de sofrer danação eterna por matar, coisa para a qual não existe nenhuma garantia que me possa defender.

Primeiro assassino – Pensei que você estivesse decidido.

Segundo assassino – Pois estou decidido... a deixá-lo viver.

Primeiro assassino – Posso voltar à presença do Duque de Gloucester (Ricardo III) e contar isso a ele.

Segundo assassino – Não, eu te peço; espere um pouco. Tenho esperança de que este meu estado de espírito piedoso vá mudar. Ele costuma me frear só o tempo de se contar até vinte.

Primeiro assassino – E como é que você está se sentindo agora?

Segundo assassino – Ainda sinto dentro de mim alguns resquícios de consciência.

Primeiro assassino – Lembre-se de nossa recompensa, quando a coisa estiver feita.

Segundo assassino – Pelas chagas de Cristo, ele morre! Eu tinha me esquecido da recompensa.

Primeiro assassino – Mas, onde está a sua consciência agora?

Segundo assassino – Ah, na bolsa do Duque de Gloucester.

 

É marcante a fragilidade do poder e das alianças para sustentá-lo. Abundam também pragas homéricas, proferidas, quase sempre, por quem já as mereceu em passo anterior. Ricardo, o alvo da grande maioria delas, é caracterizado como um manipulador hábil, e alguns dos melhores momentos do texto ocorrem, quando ele está debatendo com alguém. Ele, cuja feiúra física é constantemente utilizada como metáfora para seu caráter pestilento, parece representar um selvagem sem lei, a ameaçar a ordem, a estabilidade e a segurança de todos. Seu emblema, o javali, também aponta para isso, como um animal selvagem tido por feio e violento. O próprio Ricardo não demonstra remorso por sua maldade e, ao mesmo tempo que a dissimula perante os outros personagens, assume-a orgulhosamente perante o leitor/espectador.

 

Mas eu, que não fui moldado para as proezas dessas brincadeiras, nem fui feito para cortejar espelho de olhar amoroso; eu, que sou de rude estampa e sou aquele a quem falta a grandeza do amor para me pavonear diante de uma ninfa de andadura lúbrica; eu, que fui deserdado de belas proporções, roubado de uma forma exterior por natureza dissimuladora, foi com deformidades, inacabado e antes do tempo que me puseram neste mundo que respira, feito mal-e-mal pela metade, e esta metade tão imperfeita, informe e tosca que os cachorros começam a latir para mim se me paro ao lado deles. Ora, eu, na calmaria destes fracos tempos de paz, não encontro prazer em ver o tempo passar, a menos que seja para espionar a minha sombra ao sol e discorrer sobre meu próprio corpo deformado. Portanto, uma vez que não posso e não sei agir como um amante, a fim de me ocupar nestes dias de elegância e de eloqüência, estou decidido a agir como um canalha e detestar os prazeres fáceis dos dias de hoje.

 

Embora a ruína da maioria dos personagens seja marcada por uma crise de consciência, durante a qual cada um reconhece a própria participação na desordem e na injustiça correntes, Ricardo termina concentrando a responsabilidade por todo o mal, coincidindo sua derrocada com o estabelecimento da confiança, da lei e da paz.




Categoria: Livros


Escrito por Ramon às 19h47 [ Comentar ] [ envie esta mensagem ]






Filosofia e Literatura para quê?


Estive pensando ultimamente quão interessantes são, para mim, as coisas inúteis. Entre o que mais me encanta, e me chama a atenção, e me move, está, ao mesmo tempo, aquilo que, para a maioria das pessoas, é perda de tempo. Assim que alguém se lança ao estudo da Filosofia e da Literatura ou da Arte, em geral, depara, sem demora mesmo, como se fizesse parte da própria definição delas, com um esforço para justificar-se. “Para que serve?” é a pergunta cuja resposta determina o valor, em nosso tempo. Ela pode ser desdobrada em questões como: “Que diferença isso vai fazer em minha vida?”, “Qual é a repercussão imediata que isso gera?”, “Que lucro me proporcionará?”.

Filosofia e Literatura também estão aparentadas pelo fato de não permitirem uma definição indubitável, uma delimitação segura e inquestionável, uma silhueta cujos contornos se apreendam facilmente com os olhos da mente. É lugar-comum dizer que definir Filosofia é um dos mais intrincados problemas filosóficos. Da mesma forma, os debates teóricos, no âmbito da Literatura, têm, na procura pelos critérios de valor do literário, um de seus departamentos mais inquietos. A questão mais recorrente, em uma aula de Teoria Literária, refere-se a essa diferenciação entre o texto que pode e o que não pode ser laureado com o título de arte.

Há aqueles apaixonados por essas áreas que, diante do tiro utilitarista, irritam-se e simplesmente ignoram. Quando já se está dentro, a utilidade é óbvia ou irrelevante A luta é mesmo inglória, porque consiste em demonstrar, nos termos do “inimigo”, a finalidade da Filosofia e da Literatura. Este é um tema que me ocupa recentemente e, se eu não desaparecer novamente do blogue, por conta da correria destes tempos do para-quê, figurará nas próximas postagens.




Categoria: Filosofia


Escrito por Ramon às 17h46 [ Comentar ] [ envie esta mensagem ]






Filosofia na escola

A propósito, foi sancionada recentemente uma lei que determina a obrigatoriedade de Filosofia e Sociologia no currículo das três séries do Ensino Médio. Ambas compunham o rol de matérias estudadas nesse nível de ensino, antes da Ditadura Militar. Vinte anos depois da Constituição Cidadã, duas das áreas de conhecimento mais essenciais à formação de cidadãos retornam à escola. Uma questão pertinente, no debate sobre a utilidade da Filosofia, é: por que regimes autoritários se apressam em suprimir a presença dela no meio social, tanto quanto possível?




Categoria: Filosofia


Escrito por Ramon às 17h45 [ Comentar ] [ envie esta mensagem ]







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