Recomendo a leitura deste texto, de autoria da historiadora Maria Clara Sampaio, sobre a história do Haiti, para entender por que o País é o mais pobre e atrasado das Américas. Tendo sido o primeiro país latino-americano a se tornar independente, por força de uma rebelião de escravos que aterrorizou as elites coloniais europeias e americanas, diante da ameaça que a ideia de uma ex-colônia libertada e comandada por ex-escravos representava para o bastante lucrativo sistema de produção que sustentava as economias do sul dos EUA e de praticamente toda a América Latina e Caribe. Seguiu-se à independência do Haiti um boicote internacional que dificultou a estabilização do País. Seu fracasso serviu, por muitos anos, para fortalecer o discurso dos países dominantes de que era intrinsecamente inviável um Estado gerido por africanos ex-escravos.
Machado de Assis é um velho conhecido do leitor lusófono. Sua posição nas letras brasileiras não apenas é proeminente: beira a unanimidade. Nenhum outro escritor de nossa terra goza do mesmo prestígio, é tão citado e imitado, desperta tanta admiração e reverência quanto o autor de Memórias Póstumas de Brás Cubas, mesmo quando se consideram as pessoas que pouco ou nada leem, em um país de iletrados ou de letrados que abdicam do direito à leitura. Se, por um lado, o gênio de Guimarães Rosa também é louvado, por outro, não conta com a mesma popularidade do Bruxo do Cosme Velho. Se Paulo Coelho é popularíssimo, não merece o respeito, sequer a atenção, da crítica, da Academia nem de leitores maduros.
Apesar disso, ainda há um Machado imperdível, mas bastante pouco explorado pela maioria dos leitores: o cronista. A obra do escritor se estende por diversos gêneros, incluindo poesia e teatro, mas ele foi consagrado por sua prosa. A de ficção é a mais lida, estudada e festejada. A Capitu pintada por Bentinho já foi transposta para o cinema e para a televisão, assim como o defunto narrador Brás Cubas, ambos incessante e crescentemente destrinçados em programas de pós-graduação. Para quem já conhece e ama os escritos do autor, é firmemente recomendável aventurar-se em suas crônicas.
Além de ficcionista e servidor público, Machado escreveu, para a Gazeta de Notícias, textos acerca de assuntos variados de semanas da década de 1890. São peças inevitavelmente marcadas pelo tempo, mas que guardam tanto interesse histórico quanto literário. O primeiro dirige-se ao pensamento e às opiniões do indivíduo Machado de Assis, bem como aos eventos e atores os quais marcaram a transição da Monarquia para a República no Brasil. O interesse literário está na linguagem esmerada e expressiva, mas leve, na ironia refinada e na capacidade de transitar, com naturalidade, por temas como literatura, cotidiano, economia, história, fazendo volteios de valsa com o leitor, que passa de considerações abstratas ao concreto do dia-a-dia, em movimento que se repete até o fim da crônica, quando as pontas são magistralmente unidas pela pena do cronista.
Para quem conhece a obra machadiana e sabe que clássicos são sempre inesgotáveis, ler as crônicas equivalerá a descobrir um manuscrito perdido daquele seu autor predileto cujas obras você já lera e relera. Os que pouco conhecem Machado e encararem esses textos farão um percurso inusitado, arriscado para leitores em formação, mas nem por isso menos interessante. Há edições variadas à disposição no mercado, consistindo em seleções particulares das crônicas que saíram nos jornais. Na Internet, inclusive, há edições eletrônicas com acesso gratuito.
Como ser um jornalista imparcial? Favoreça seu viés ideológico, dissemine suspeitas acerca de quem quiser, mas faça uso dos recursos da língua, para dar um verniz de que manteve o juízo suspenso em relação ao fato. Deparei com a seguinte manchete: "Filme sobre Lula pode influenciar eleição presidencial, diz 'NYT'". Isso não é notícia. Vale tanto quanto afirmar que filme sobre Lula pode não influenciar eleição.
Curioso é que o próprio texto, citando a reportagem original do NYT, traz bons argumentos que desabonam a possibilidade aventada. Menciona, por exemplo, o baixo alcance do cinema, especialmente de produções nacionais, no Brasil, que conta com apenas 2300 salas de exibição concentradas em 7% dos municípios, sendo que não mais do que uma pequena parcela delas estaria reservada para Lula: o filho do Brasil. Pode-se reforçar o argumento, consultando a lista de maiores bilheterias do cinema tupiniquim. Nas duas últimas décadas, depois da chamada "Retomada", o quadro é o seguinte:
Sobre a intenção dos produtores e do realizador de favorecerem os projetos políticos do atual Presidente, a equipe do filme alega o contrário. Cinema é coisa cara, uma indústria que precisa dar lucro, para se autofinanciar e ter sustentabilidade. Nada mais comercialmente oportuno do que pegar carona na popularidade gigantesca de Lula, que inegavelmente viveu uma história cheia de ação e com apelo emocional, a fim de arrebanhar espectadores aos cinemas e aquecer as bilheterias.
Ainda não assisti ao filme, mas tenho o palpite de que a quase totalidade do público dele será de pessoas que já têm simpatia por Lula. Alguns amigos meus que nutrem antipatia pelo Presidente ou se mantêm indiferentes a ele fizeram careta ou se esquivaram polidamente, diante de minha sugestão de vermos a película. Embora sua história não seja conhecida em detalhes, e o poder da imagem sobre a mente das pessoas seja inegavelmente devastador, Lula é velho conhecido da população do País, depois de um mandato de deputado federal, cinco eleições presidenciais e quase oito anos de Governo. Não creio que o cinema vá mudar muita coisa quanto ao que se pensa dele.
A manchete citada no primeiro parágrafo, ao ressaltar a possibilidade de o filme influenciar as eleições, como se ele tivesse sido destinado para isso, manifesta uma escolha do jornalista que tanto não traduz a problematização contida no próprio texto, quanto parece se alinhar com uma corrente política que anda levantando essa acusação, em um contexto de disputa partidária.
Por que um decreto de cunho meramente programático desperta tamanha reação em certos setores e na mídia que os representa?
O jornalista Fernando Rodrigues (Folha de São Paulo/UOL), bem como outros que poderiam parecer menos insuspeitos aos olhos de antilulistas, comparou, em seu blogue, o plano recém-lançado com aquele por que foi responsável o Governo FHC e concluiu que as diferenças entre ambos, em essência, não são tão vultosas quanto pinta a oposição e certos grupos de imprensa, embora os mesmos veículos tenham dado cobertura diferente no lançamento dos planos passados.
José Nêumanne Pinto certamente não está delirando no vídeo abaixo. Não creio. Apenas, talvez, quando ele e seus chefes acreditam que alguém pode levar a sério mentiras tão fragilmente construídas sobre o PNDH do fim do mundo. Basta conferir o documento e constatar que nem a pior interpretação possível se desprenderia tanto da letra do texto. Ou, sou eu que deliro, acreditando na capacidade de julgamento das pessoas?
Um pastor evangélico bem posicionado na Paraíba, minha terra natal, costuma associar catástrofes como a haitiana ao credo religioso das vítimas. Pergunto-me, diante da tristeza paralisante das imagens que vi na TV, de um povo esfolado por uma miséria pantanosa, como alguém é capaz de se sentir tão superiormente puro e correto, a ponto de levantar o dedo em direção a uma legião de pessoas que têm nome, história e afeto.
"I hear you say "Why?" Always "Why?" You see things; and you say "Why?" But I dream things that never were; and I say "Why not?" "
Autor: Bernard Shaw
("Escuto você perguntar 'por quê?'. Sempre 'por quê?'. Você vê as coisas e pergunta 'por quê?'. Eu, porém, sonho coisas que nunca existiram e me pergunto 'por que não?'.) Da obra "Back to Methuselah", que não li, mas agora pretendo. O autor, dramaturgo irlandês, é fonte prolífica de frases memoráveis.
Voltando ao "caso Casoy": ele pediu desculpas aos garis e aos telespectadores pela frase infeliz que emitiu. Andam perguntando o que ele falou, depois de pedir desculpas, quando o áudio foi cortado para o intervalo comercial.
Um fenômeno bem antigo começa a dar os primeiros sinais de inversão. Em virtude de assimetrias espaciais no território brasileiro, o fluxo migratório principalmente de populações pobres do Nordeste para grandes centros urbanos do Sudeste compôs, por mais ou menos um século, o retrato do País. As desigualdades interregionais ainda são grandes, mas, já faz algum tempo, os livros de geografia relatam um processo de descentralização produtiva, que levou indústrias importantes a abrirem unidades fora do eixo Rio-São Paulo. A par dessa descentralização, investimentos em infraestrutura, o Bolsa Família e a previdência social aliada a reajustes reais do salário mínimo têm eliminado pouco a pouco as razões que levavam as pessoas a abdicarem de suas famílias, paisagens e cultura e, em busca de oportunidades de vida, engrossarem a diáspora nordestina. Nos últimos seis anos, 400 mil nordestinos retornaram para a Região, vindos do sul do País. Depois de um tempo muito longo, uma região tradicionalmente exportadora de gente passa a ter saldo positivo no balanço migratório. Vejam aqui reportagem sobre o assunto, publicada pelo Uol Notícias.
O bordão "Isto é uma vergonha!", disparado cansativamente pelo âncora de telejornal Boris Casoy, desde que me entendo por gente, e ele ainda era empregado do SBT, sempre me pareceu autoritário. Passava-me a impressão de que ele acreditava que sua opinião era tão importante, que dispensava fundamentação. "É, porque é, e basta que eu diga." Além disso, parecia-me algo ingênuo, porque, quando realmente era uma vergonha, não era necessário que ele o dissesse. Funcionava mais ou menos como uma locução de futebol, em que o narrador diz única e exclusivamente o que vemos na tela, num fluxo redundante de informações, simultaneamente via audição e visão. Se alguém não fosse capaz de identificar por si uma notícia absurda, interessaria muito mais a essa pessoa saber por que era absurda, não apenas que o era. Não me lembro de Casoy fazer isso, salvo em raríssimas ocasiões.
Agora encontrei no blogue Vi o mundo a reprodução de uma página de reportagem da revista O Cruzeiro na qual Casoy aparece entre os integrantes do Comando de Caça aos Comunistas (CCC). O blogue Cloaca News foi responsável por resgatar a edição da extinta revista.
O mesmo Bóris, que tem nome de russo, recentemente foi vítima dos ouvidos que as paredes têm. No caso específico, ele fez comentários vergonhosos sobre a aparição de dois garis desejando bom Ano Novo no telejornal que apresenta. Pouco antes da pausa para o intervalo comercial, os dois varredores aparecem rapidamente desejando um feliz 2010. Em seguida, vem a vinheta do jornal. Sem saber que o áudio estava aberto, Casoy diz: "Que merda! Dois lixeiros desejando felicidades do alto das suas vassouras. Dois lixeiros, o mais baixo da escala do trabalho." Eis o vídeo:
Que merda, alguém ser capaz de reagir assim ao desejo sincero de felicidades por parte de outro ser humano. Isso sim é uma vergonha.
Em 2001, a direção da Petrobrás, então comandada por gente indicada pelo governo de coalizão PSDB-DEM (ex-PFL), lançou proposta de trocar o nome da petrolífera brasileira para Petrobrax, sob o argumento de que a associação da marca com o País era negativa, ligava-a ao atraso e dificultava as aspirações de internacionalização dela.
A forte reação que se seguiu levantou suspeitas de que a mudança proposta integrava o conjunto de ações - já implementadas, planejadas ou apenas aventadas pelos cabeças do Governo de então -, as quais se sustentavam na ideologia neoliberal do Estado mínimo. O significado de fundo da alteração da marca seria a intenção de privatização ulterior da Petrobrás, compatível com o que FHC e seus apoiadores fizeram com a Vale, a Eletrobrás, a Embratel e várias empresas pertencentes ao povo brasileiro. O argumento dominante à época era de que essas empresas eram ineficientes sob administração pública e de que o Estado deveria vendê-las e aplicar os recursos arrecadados em ações e políticas que lhe fossem específicas.
Hoje a imagem do Brasil, ao contrário de prejudicar, valoriza a marca. A Petrobrás, apesar de ter continuado sob o controle do Estado, é a nona empresa em valor de mercado do mundo inteiro, de acordo com estudo da consultoria estadunidense Ernst & Young. Conforme observou Luiz Carlos Azenha, a questão não era trocar um "s" por um "x", mas mudar o governo e a ideologia no comando. É muito difícil imaginar o Brasil com a estatura de hoje, sem o controle da Petrobrás e os meios que ela dá ao País, para induzir o desenvolvimento nacional.